quarta-feira, 19 de agosto de 2009

A MOSCA CONTINUA NA SOPA


Segunda-feira, 21 de agosto de 1989. Sexta-feira, 21 de agosto de 2009. Vinte anos sem Raulzito.
Raul Santos Seixas é um personagem único na história da música brasileira. Tão popular quanto underground, vendeu milhares de discos e frequentou as paradas de sucesso, sem jamais se render às armações do show business. Rejeitou rótulos, recusou-se a fazer parte de movimentos ou “panelinhas” musicais, mas foi adorado por uma legião de fãs (seria melhor dizer “discípulos”) como poucos artistas o foram no Brasil. Observador atento e mordaz do seu tempo, destilou – na linha de Lennon e Dylan – venenos de inteligência no patético universo temático que geralmente domina a MPB. Embora sua carreira tenha prosperado na década de 1970, sob inspiração do rock dos 50, identificou-se estética e musicalmente muito mais com a genial e revolucionária geração dos 60: a rebeldia psicodélica, a contestação sociopolítica, o nonsense, enfim, o comportamento anti-establishment o transformou na principal voz da contracultura no Brasil. Sua língua anarquista voltou-se não só contra a ditadura então vigente no país, mas também contra alguns medalhões da MPB, membros de uma espécie de patrulha intelectual de esquerda que insistia em ditar regras, gostos e modas. Isto lhe valeu mais inimigos que aliados. Isolado, Raul, aos poucos, sucumbiu ao álcool e, sobretudo, à voracidade da mídia à qual teimosa e solitariamente tentou resistir.
Na primeira metade dos anos 70, lançou álbuns antológicos como o inigualável Krig-Há Bandolo e canções do naipe de Let me sing, let me sing, Mosca na sopa, Metamorfose ambulante, Ouro de tolo, Gità, O trem das sete, Tente outra vez, Paranóia, Como vovó já dizia e tantas outras. Na segunda metade daquela década e na seguinte, a saúde frágil e a inadaptação ao consumismo da indústria musical trouxeram-lhe a decadência artística. Ainda assim, restou-lhe um pouco do sarcasmo com que olhava o mundo a sua volta em canções como a recentemente redescoberta Gospel, Maluco beleza, Cowboy fora-da-lei e Aluga-se. Nesta última, Raulzito anunciou profeticamente o Brasil do terceiro milênio: um Brasil globalizado, privatizado, neoliberal na economia e conservador na moral; o Brasil da “axé-bunda”, do pagode “mauricinho”, do “breganejo”, do “pop gospel” e lixos afins. Um Brasil que Raulzito teve a sorte de não conhecer. Teve a sorte também de não presenciar seu ex-parceiro, o “mago” Paulo Coelho, tornar-se milionário e mundialmente famoso graças a uma literatura (?) de auto-ajuda de quinta categoria.
Livre da mediocridade que impera no planeta Terra, Raul Seixas, tal como cantou em Mosca na sopa, ainda perturba o nosso sono. Seu nome ou os de suas canções, alvos de preconceitos elitistas e arroubos nacionalistas, não constam – e nem ele próprio gostaria que constassem – de quaisquer dessas listas oficiais dos “melhores da MPB” que as patrulhas intelectuais brasileiras vez por outra inventam apenas para terem seus egos satisfeitos e, obviamente, suas vendas aumentadas. Houvesse nascido inglês ou norte-americano, certamente Raul estaria entre os grandes do rock internacional. Porém, se inglês ou norte-americano fosse, jamais teria herdado a musicalidade nordestina. E foram justamente as suas raízes nordestinas que lhe permitiram descobrir as similitudes entre Elvis Presley e Genival Lacerda, entre Beatles e Luiz Gonzaga, entre Bob Dylan e Patativa do Assaré, e conceber a criativa e genuína mescla de rock e baião, por meio da qual tornou-se um dos poucos rockeiros deste país a merecer o adjetivo – e não apenas o rótulo – de “brasileiro”.

Long live Raulzito.

Raul Seixas - Gospel


PS: O autor deste post chorou convulsivamente ao ser informado sobre a morte de Raul Seixas. Se minha memória corroída pelo álcool não estiver falha, isto se repetiria somente mais três vezes nos últimos vinte anos: quando o beatle George Harrison e dois dos meus amigos mais fraternos também deixaram este mundo.

terça-feira, 28 de julho de 2009

JUVENTUDE, MÚSICA E REVOLUÇÃO: uma pequena história do poder jovem na segunda metade do século XX

Capítulo 2: ANOS 60 - A REVOLUÇÃO JOVEM ( IV)

2.4. Alienados versus engajados: Jovem Guarda, festivais e protesto.

O golpe militar de 1964 jogou uma pá de cal na mobilização política que, desde o final dos anos 50, envolvia os setores mais progressistas da sociedade brasileira, com ativa participação do segmento jovem representado principalmente pela UNE e por movimentos ligados à Igreja Católica, tais como a JUC (Juventude Universitária Católica) e a JOC (Juventude Operária Católica). Com os militares no poder e a classe política cassada ou acovardada, coube ao movimento estudantil e a setores do campo artístico e intelectual erguerem a bandeira da resistência democrática ao regime autoritário.
A música popular brasileira da época refletiu, de certa forma, as clivagens ideológicas então presentes na sociedade brasileira. Se no plano estético, classificações estilísticas devem ser bastante relativizadas por terem no mais das vezes valor meramente descritivo e pouca funcionalidade, num ambiente de radicalização política e patrulhamento intelectual à direita e à esquerda, como o que havia no Brasil dos anos 60, os rótulos atribuídos a um ou outro movimento artístico – e a um ou outro artista em particular - inevitavelmente pecam por reduzirem a realidade a esquematizações forçadas e equívocas. Mas era um tempo em que a política subordinava a estética e em que diferenças culturais e artísticas eram automática e mecanicamente associadas a polarizações ideológicas.
Os artistas ligados ao movimento conhecido como “Jovem Guarda”, sob a liderança de Roberto e Erasmo Carlos, gozavam de grande popularidade, sobretudo entre os jovens da classe baixa e média baixa. Seu cancioneiro era, na forma e no conteúdo, uma versão abrasileirada do rock britânico anterior à dylanização. Cantavam as aventuras amorosas, as festas de arromba, a paixão por automóveis e queriam que “tudo mais fosse para o inferno”. Dominavam as paradas radiofônicas, as vendagens de discos e comandavam um dos programas de TV de maior audiência da época, contudo, seu prestígio junto à intelectualidade era nenhum. Sua música – pejorativamente rotulada de “iê-iê-iê”, uma onomatopéia derivada de “yeah-yeah-yeah”, extraída do refrão de um sucesso dos Beatles – era qualificada de melódica, harmônica e liricamente pobre. Taxados de colonizados, entreguistas e vendidos à indústria cultural, os jovem-guardistas estariam contribuindo para a alienação do povo brasileiro, em benefício das classes dominantes e da ditadura militar.

Roberto Carlos - Quero que vá tudo pro inferno


No extremo oposto, estava a música politicamente engajada, que tratava das mazelas sociais do país e combatia a ditadura. Seus representantes não alcançavam grande sucesso comercial, mas desfrutavam de enorme penetração entre os jovens da classe média mais escolarizada. Vigiados pela repressão militar, usavam de uma série de estratagemas – metáforas, trocadilhos, pseudônimos, etc – para escaparem à censura oficial que proibia qualquer palavra de crítica ao regime. Herdeiros da bossa-nova, defendiam uma espécie de nacionalismo musical, procurando preservar as raízes do que entendiam ser a música “genuinamente” brasileira, e abominavam o rock como uma espécie de braço do imperialismo norte-americano que invadia as mentes dos nossos jovens e roubava o espaço da cultura nacional. O ápice da luta anti-imperialista na música foi a passeata contra a guitarra elétrica ocorrida em São Paulo em 1966. As canções engajadas ilustraram algumas das mais importantes e politizadas produções artísticas da época, tais como o épico do cinema-novo “Deus e o diabo na terra do sol”, cuja trilha sonora foi assinada por Sérgio Ricardo, o “Show Opinião”, estrelado por João Alves, Zé Ketti e Nara Leão (mais tarde substituída por Maria Bethânia) e a peça “Arena Conta Zumbi”, musicada por Edu Lobo.

Sérgio Ricardo - O sertão vai virar mar ("Deus e o diabo na terra do sol")

João Alves e Nara Leão - Missa agrária/Carcará (show "Opinião")

Edu Lobo - Upa neguinho ("Arena Conta Zumbi")


Mas foram os Festivais da Canção, promovidos desde 1965 pelas principais emissoras de TV da época, os palcos principais da música de protesto brasileira. De meros concursos musicais, os festivais transformaram-se em palanques políticos, sobre os quais jovens compositores como Carlos Lyra, Chico Buarque de Holanda, Geraldo Vandré, Sidney Miller, Gilberto Gil, os já citados Sérgio Ricardo e Edu Lobo, dentre outros, alimentavam as utopias revolucionárias de parte da juventude brasileira. Não raro, os festivais culminavam em acalorados debates sobre qual música merecia triunfar não tanto por suas qualidades estéticas, mas sobretudo por sua capacidade de melhor retratar o momento político vivido pelo país.

Geraldo Vandré - Porta estandarte

Elis Regina - Arrastão

Nara Leão - A banda

Jair Rodrigues - Disparada

Elis Regina - Ensaio geral

Edu Lobo, Maria Medalha e Momento Quatro - Ponteio

Chico Buarque e MPB-4 - Roda Viva

Nara Leão e Sidney Miller - A estrada e o violeiro

Elis Regina - O cantador

Elis Regina - Travessia


As ideologias que povoavam o imaginário progressista da política brasileira nos imediatos pré e pós-golpe de 64 dividiam-se entre o nacional-desenvolvimentismo e o marxismo. O primeiro calcado nas teses da Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), cujo principal formulador no Brasil era o economista Celso Furtado. O segundo veiculado de forma hegemônica pela apropriação feita pelo Partido Comunista Brasileiro. Os compositores de protesto, filiados a uma ou outra corrente – ou, o que era comum, combinando ambas –, não importando se consciente ou inconscientemente, filtravam suas idéias da retórica academicista para a linguagem popular. A música popular transformava-se, assim, aqui como acolá, numa espécie de ponte entre o mundo intelectual e as massas.

Gilberto Gil - Procissão

Marcos Valle e Milton Nascimento - Viola enluarada


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terça-feira, 14 de julho de 2009

JUVENTUDE, MÚSICA E REVOLUÇÃO: uma pequena história do poder jovem na segunda metade do século XX

Capítulo 2: ANOS 60 - A REVOLUÇÃO JOVEM (III)


2.3. Canções e mediações: a música abre as portas da percepção


Não pretendemos explicar de forma reducionista toda a excitação sociocultural da década de 60, em grande parte protagonizada pela juventude, apenas pelo aparecimento dos Beatles ou pela eletrificação de Bob Dylan. Um grupo social não é capaz de realizar quaisquer movimentos se, para os quais, as condições objetivas não estiverem dadas, diria o velho Marx. A conjuntura econômica e política encontrada nos Estados centrais do capitalismo favorecia especialmente à emancipação social da juventude. A sociedade de consumo, surgida desde os anos 50 nos EUA, chegara à Europa nos 60, quando também os efeitos sociais do Estado de Bem-estar faziam-se notar pela melhoria geral do padrão de vida, incluindo o dos trabalhadores. Houve teóricos, como Wright Mills, que chegaram mesmo a especular sobre o desaparecimento da classe operária, elevada em suas condições socioeconômicas a um status próximo ao das camadas médias da população.
Em política, a derrota dos regimes totalitários na II Guerra e as revelações dos crimes do stalinismo nos anos 50 reforçaram a crença no caráter universal do Estado democrático de direito, cujas instituições garantiam aos cidadãos europeus e norte-americanos um amplo espectro formal de liberdade individual, embora um certo nível de repressão e censura continuasse a vigir informalmente. Com as contradições econômicas e políticas do capitalismo aparentemente superadas, abriu-se espaço na agenda dos movimentos sociais para as demandas reivindicatórias das minorias emancipacionistas, a juventude dentre elas. Ressalte-se ainda, como fator conjuntural importante, a extensão do tempo de educação e a ampliação do acesso ao ensino superior que possibilitaram aos jovens, além de um desenvolvimento intelectual maior e menos influenciado pelos pais, a experiência de uma vida comunitária nos campi universitários.
Entretanto, a menos que acreditemos que a história segue um curso pré-determinado teleologicamente, haveremos de observar que as condições materiais relatadas nos parágrafos anteriores, se necessárias e indispensáveis, não eram absolutamente suficientes para a eclosão do poder jovem nos anos 60. As ações humanas, coletivas e individuais, movem-se no terreno das condições objetivamente dadas, mas são motivadas subjetivamente. Com isso, queremos dizer que, por mais favorável quanto fosse a conjuntura da época, a juventude não teria sido despertada de seu sono letárgico se um fato novo não a sacudisse, se sua subjetividade não fosse tocada. A música popular, ao atuar na esfera da mediação cultural, desempenhou o papel de motivador subjetivo para os jovens sessentistas.
Grande parte das análises teóricas sobre a música popular tendem à seguinte oposição binária: haveria, de um lado, uma “música-mercadoria” produto artificial da indústria fonográfica, destinada a conformar, pela imposição do “poder autoritário do ritmo” (Theodor Adorno), a existência do ouvinte-consumidor aos ditames do capitalismo contemporâneo; de outro lado, uma música mais “autêntica”, expressão “espontânea” dos interesses, identidades e visões de mundo das classes populares. O jazz para os norte-americanos, o samba para os brasileiros e inúmeros exemplos de músicas “folclóricas” nacionais ou regionais seriam enquadradas na segunda tipologia, cabendo ao rock´n´roll personificar, melhor que qualquer outro gênero, a primeira. Na verdade, tal tipificação remete ao debate que opõe cultura popular à cultura de massa e discute o papel da indústria cultural como formatadora de gostos e opiniões.
Embora esta dicotomia seja aplicável a determinados casos, procuraremos relativizá-la aqui, seja por uma opção conceitual que vislumbra a cultura popular como uma “arena de elementos conflitivos, que somente sob uma pressão imperiosa (...) assume a forma de um ‘sistema’” (Edward Thompson), seja por considerarmos que, nos anos 60, a indústria fonográfica ainda era um sistema em construção, cujas bases materiais e ideológicas não estavam completamente solidificadas, e, por conseguinte, apresentava brechas, interstícios, vazios, por entre os quais visões contraditórias da sociedade poderiam ser mediadas sob a forma de “espectros do real” (Zizek) e provocar, senão transformações estruturais, alguns deslocamentos culturais (Stuart Hall) no establishment.
Quando tocamos na função mediadora da música popular do período, referimos-nos àquilo que Fredrik Jameson escreveu sobre a capacidade de um texto cultural de carregar simbolicamente um “inconsciente político”. A mediação cultural deve ser compreendida como um processo de “transcodificicação” (Jameson), isto é, a escolha de uma linguagem específica que permita articular dois ou mais tipos distintos de textos culturais ou de realidades. A mediação confere organicidade à cultura, transformando os seus atores em intelectuais (no sentido gramsciano do termo), e enfatiza a sua “natureza comunicativa” e não apenas informativa (Martin-Barbero), ou seja seu poder de produzir significações e não meramente fazer circular informações.
Mas qual a necessidade de uma mediação cultural? Acaso, os jovens sessentistas não seriam capazes de produzir suas próprias idéias a respeito do mundo em que viviam? Ou de acessar diretamente o universo conceitual produzido por gente como Jean Paul Sartre, Herbert Marcuse, Wilhelm Reich, Norman Brown e outros “fazedores de cabeça” dos anos 60? Não desejamos mitificar aquela geração: seria simplório dizer que os jovens de então eram politicamente mais conscientes, dotados miraculosamente de uma capacidade intelectual superior às dos jovens de outras gerações ou de uma vocação extraordinária para a leitura e absorção da alta cultura acadêmica.
É comum encontrar nos estudos históricos, sobretudo aqueles que se debruçam sobre períodos de transformação social e política, uma vinculação instantânea entre pensamento e ação, entre idéias revolucionárias e praxis revolucionária. No entanto, na maioria das vezes, entre a cabeça de um filósofo e as mãos de um militante existe um labirinto de possibilidades, obstáculos, atalhos, caminhos alternativos, enfim, mediações. Por exemplo: afirmamos vulgarmente que a filosofia iluminista “influenciou” os atores da Revolução Francesa, sem nos darmos conta de que perto de noventa por cento da população da França em fins do século XVIII – incluindo todo o campesinato, grande parte da burguesia e significativa parcela da aristocracia – era iletrada. Diante desta evidência, como conceber o link entre iluminismo e revolução? Com esta dúvida metódica em mente, o historiador Robert Darnton estudou a cultura popular da sociedade francesa no contexto da crise do Antigo Regime e revelou a existência de uma literatura boêmia, de “baixo calão”, lida, cantada ou teatralizada nas tabernas, festas comunitárias, encenações ao ar livre, que satirizava a vida do clero, da nobreza e da realeza e enviesava um protesto político no qual se encontravam, em fragmentos traduzidos para a linguagem da gente comum, as idéias de Rousseau, Voltaire e companhia.
Pois bem, entendemos que a literatura boêmia dos jovens sixties foi a música popular. As idéias que criticavam o “velho mundo” e sugeriam a emergência de um “novo” pairavam no ar. Os compositores e músicos as captavam e levavam aos ouvidos da juventude.
Bob Dylan – grande herdeiro da tradição trovadorística de Leadbelly, Woody Guthrie, Pete Seeger e outros – foi a primeira antena que pôs a juventude em sintonia com a revolução cultural em curso. A sua “Blowin’ in the wind”, ainda da fase “folk”, é, provavelmente, o arquétipo da canção de protesto dos anos 60. Versos como quantas estradas precisará um homem andar antes que possam chamá-lo de homem?, quantos anos podem algumas pessoas existirem até que lhes seja permitido serem livres?, quantas vezes pode um homem virar sua cabeça e simplesmente fingir que não vê?, quantos ouvidos precisará um homem ter até que ele possa ouvir o povo chorar?, quantas mortes custará até que ele saiba que gente demais já morreu?, são análogos às conjecturas sobre a relação entre liberdade individual e engajamento político que autores como Sartre, em seu esforço de conciliação do existencialismo com o marxismo, produziram.
Cantando – às vezes pregando – como se messias de uma nova era fosse, Dylan antecipou-se a todos os seus contemporâneos – até mesmo a muitos epistemólogos e cientistas sociais que, mais tarde, viriam a teorizar sobre o caos pós-moderno –, ao avisar que os tempos estão mudando (“The times they are a-changing”). Suas palavras soam apocalipticamente reveladoras de um tempo de mutações velozes, imprevisíveis e indomáveis. O povo é chamado a se reunir onde quer que ande, pois as águas que nos cercam se elevaram e é melhor começar a nadar se não se quiser afundar como pedra. A incapacidade dos analistas de preverem os desdobramentos das transformações em curso é constatada – antes mesmo que os próprios a admitissem –, quando escritores e críticos são convocados a manterem os olhos abertos e a não falarem cedo demais pois a roda (das mutações) continua girando e o perdedor de agora será o vencedor de amanhã.

Bob Dylan - "The times they are a-changing"


Políticos são alertados a não congestionarem os corredores pois existe uma batalha lá fora urrando, logo ela estará sacudindo suas janelas e tremendo suas paredes – um ataque a política parlamentar e à democracia eleitoral-representativa que, no mais das vezes, funcionariam como um entrave burocrático às demandas sociais mais emergentes. Discurso semelhante poderia ser lido em textos de Marcuse, dos intelectuais marxistas mais comprometidos com a idéia clássica de revolução popular, tais como Guevara e Mao Tsé-tung, ou ainda nos da Nova Esquerda crítica do reformismo assumido pelos partidos social-democratas.
O conflito de gerações também é abordado, quando adverte a pais e mães que não critiquem o que não conseguem compreender, uma vez que seus filhos e filhas estão além de seu comando, e sua velha estrada está rapidamente deteriorando. E a aceleração do tempo histórico, discussão tão cara nos meios acadêmicos, também aqui é diagnosticada: o lento agora mais tarde será veloz e o presente agora mais tarde será passado. A ordem rapidamente se desbota e o primeiro agora mais tarde será o último. Enfim, em apenas cinco estrofes, Dylan apresenta aos seus ouvintes uma visão panorâmica da sociedade em vias de desconstrução nos quadros do capitalismo tardio, antes que tratados filosóficos e sociológicos o fizessem.
“Help!”, megasucesso dos Beatles de 1965, é uma das primeiras composições da banda a fugir do modelo de canções de amor juvenil. Nela, o narrador-cantor se dirige a um interlocutor de sexo indefinido e grita por socorro, por se sentir inseguro ao atingir a maturidade. O verso Eu mudei minha mente e abri as portas alude ao livro “As portas da percepção”, em que o romancista Aldous Huxley descreve suas experiências com substâncias alucinógenas. Com as portas da mente aberta, o narrador vê sua vida mudar em vários sentidos, sente sua independência dissipar-se na neblina e implora ajuda para ter seus pés recolocados no chão. A sensibilidade do artista põe em pauta a perda de identidade, a fragmentação do “eu” e a dissolução do “sujeito autocentrado”, num mundo que se desfaz e refaz em mudanças cada vez mais velozes e fora de nosso controle. Dylan também explorou esta temática em “Like a Rolling Stone” (ver interpretação detalhada da canção no final do post “Pedras que rolam juntas por toda a vida" ).

The Beatles - "Help!"


“(I can´t get no) Satisfaction”, primeiro sucesso mundial dos Rolling Stones, traz comentários sobre a impossibilidade de se experimentar prazer em uma sociedade de consumo, dominada pela mídia de massa, que bem poderiam ser lidos como um “manual para principiantes” das obras em que o filósofo frankfurtiano Herbert Marcuse discute a sublimação do desejo na sociedade industrial moderna.

The Rolling Stones - "Satisfaction"


Em uma das suas primeiras gravações elétricas, “Subterranean homesick blues”, Bob Dylan escreveu uma letra que mistura referências ao uso de drogas (Johnny está no porão misturando medicamentos (...) Maggie vem ao pé da frota/cara cheia de fuligem preta/falando que o calor pôs ervas na cama), críticas sarcásticas às autoridades estabelecidas (o cara de sobretudo/de distintivo, ferrado/diz que está com um nó na garganta/quer pagar para se livrar) e comparações satíricas entre as expectativas de um estilo de vida “normal”, isto é, conformado às regras socialmente prescritas, e as do comportamento “deslocado” que já se podia encontrar nas ruas das grandes cidades norte-americanas. Ora ouve-se os “bons” conselhos: não ande com deslocados/melhor se manter afastado desses agitadores/do que se meter em bizarrices/mantenha o nariz limpo/observe as roupas da moda (...) fique calmo/calças curtas, romance, aprenda a dançar/ vista-se, seja abençoado (...) acenda para si uma vela/não use sandálias/tente evitar escândalos/não queira ser um vagabundo. Ora as exortações à rebeldia quase anarquista: fique doente, fique bem/arrume uma tatuagem legal/balance o pinto, é difícil falar/se alguém vai vender/vá atrás, seja barrado volte, escreva em braille/seja preso, salte a cerca/entre para o exército, se falhar (...) não siga líderes, observe os medidores dos parquímetros.

Bob Dyan - "Subterranean homesick blues"


Em 1965, a banda inglesa The Who lançou seu primeiro grande sucesso transatlântico, “My Generation”, que logo se tornaria uma espécie de hino-manifesto, ou de cartão de visitas, da juventude sessentista. Com um arranjo mais “pesado” que o comum, para os padrões do rock produzido até a primeira metade da década, uma bateria atronadora e descontrolada e um vocal simulando um gaguejar gritado, a banda apontava uma metralhadora giratória contra o carcomido mundo dos adultos, anunciando em tom acusatório que as pessoas (adultas) tentam nos colocar (os jovens) para baixo só porque estamos por todos lados. A crítica marcuseana ao tecnocratismo da sociedade industrial moderna aparece no verso as coisas que eles fazem parecem terrivelmente frias. E um libelo profético – espero morrer antes de envelhecer – não só enaltecia o estilo “viver é correr riscos” do existencialismo radical, como também demonstrava um desprezo pelo tradicionalismo respirado pelas gerações mais velhas, notadamente na aristocrática Inglaterra. Três anos depois, os estudantes parisienses repetiriam o bordão com outras palavras, recomendando num famoso grafite: “não confie em ninguém com mais de trinta anos”.

The Who - "My generation"


Três vozes simultâneas cantando à capela e com efeito de eco entoam os primeiros versos de “Nowhere man”, dos Beatles, como se a intenção fosse induzir o ouvinte a se sentir no meio de um comício ou passeata de protesto em que manifestantes bradavam palavras de ordem em uníssono. Ele é um autêntico homem de lugar nenhum - diz a letra - sentado em sua terra de lugar nenhum, fazendo seus planos de nada para ninguém. Não tem um ponto de vista, não sabe para onde está indo. Ele não é um pouco parecido com você e comigo? (...) Ele é tão cego quanto deseja ser. Só vê o que quer vê. Homem de lugar nenhum, consegue me enxergar no meio de todos?. Não estamos diante de uma verbalização instintiva da teoria marxista da alienação em sua interpretação sartriana? E quanto aos seguintes versos: Homem de lugar nenhum, por favor escute, não sabe o que está perdendo. Homem de lugar nenhum, o mundo está sob o seu comando. Seria exagero compará-los – guardadas as devidas proporções – à “chamada à responsabilidade social e política” dada por Sartre aos seus pares intelectuais?

The Beatles - "Nowhere man"


“Nowhere man” constava do álbum “Rubber soul” que, junto à "Highway 61 revisited" , de Bob Dylan, assinala um momento de transição em que o formato de “long play” deixava de ser uma mera coletânea de canções avulsas e descartáveis – com exceção de duas ou três preparadas especificamente para as paradas de sucesso e lançadas separadamente em singles –, para se tornar uma obra integral e integrada. Canções como as citadas acima e tantas mais, destes e de outros artistas, transformaram o rock em linguagem universal da juventude anglo-saxã, veículo através do qual ela expressava seus anseios, angústias e expectativas sobre a realidade que a circundava.



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terça-feira, 16 de junho de 2009

JUVENTUDE, MÚSICA E REVOLUÇÃO: uma pequena história do poder jovem na segunda metade do século XX

Capítulo 2: ANOS 60 - A REVOLUÇÃO JOVEM (II)

2.2. A Invasão Britânica e a Reação Americana

Enquanto os Beatles cuidavam de conquistar os mercados inglês e europeu, o panorama da música jovem nos EUA era de uma pobreza criativa desanimadora. Com exceção do segmento rhythm’n’blues e soul, no qual as gravadoras Motown e Stax, especializadas em artistas negros, eram férteis reveladoras de talentos, o que se ouvia nas rádios eram pálidas derivações do rock cinqüentista, como o twist de Chubby Checker ou a surf music dos muito adorados Beach Boys. No extremo oposto, menos popular e mais intelectualizada, a folk music reunia um séquito de admiradores que tinham em Bob Dylan – um compositor de inspiradíssimas canções de protesto contra a Guerra do Vietnam e em prol dos direitos civis – seu ídolo máximo.

Smokey Robinson & The Miracles - Shop around

Chubby Checker - The Twist

The Beach Boys - Surfin' USA

Bob Dylan - Blowin' in the wind


Quando pisaram a América do Norte pela primeira vez, em 1964, aparecendo num dos programas mais populares da TV americana, o “Ed Sullivan Show”, obtendo uma audiência recorde, os Beatles foram recebidos por um público histérico que os via como uma injeção de ânimo e alegria num país ainda atordoado e abatido pelo recente assassinato de seu presidente. À margem de toda a cuidadosa estratégia de marketing que os promoveu e transformou num lucrativo produto do show business, havia, contudo, uma música inovadora que se, por um lado, no início pouco tinha a tematizar além de um romantismo ingênuo e despretencioso, por outro lado, remetia ritmicamente aos fundadores norte-americanos do rock, ao mesmo tempo que incorporava outras matrizes musicais.

Apesar de escudados por uma aparência de bom mocismo, suas atitudes e declarações exalavam nonsense e irreverência que seduziam os jovens e deixavam a mídia, as autoridades e os pais intranqüilos e desconfiados: seriam eles lobos em pele de cordeiros?. Além disso, os Beatles demonstravam uma autonomia profissional jamais vista nos artistas até então. Eram eles os seus próprios compositores, músicos, vocalistas, arranjadores. E eram também os seus próprios porta-vozes, arautos de uma nova juventude, autoafirmada e autoconfiante, altiva e independente. Na trilha aberta pelos Beatles, outras bandas oriundas da Grã-Bretanha lançaram-se no mercado dos EUA: The Rolling Stones, The Who, The Kinks, The Animals, The Yardbirds. Era a “Invasão Britânica” do rock, que convidava os jovens norte-americanos a redescobrirem suas esquecidas e marginalizadas raízes musicais, especialmente as negras.

The Beatles - I want to hold your hand

The Rolling Stones - It´s all over now

The Who - I can't explain

The Kinks - You really got me

The Animals - House of the rising sun

The Yardbirds - For your love


A reação americana à invasão britânica começou em 1965, quando os Byrds, uma banda de Los Angeles que admirava simultaneamente os Beatles e Dylan, popularizou versões roqueiras de algumas canções folk compostas pelo segundo. O próprio Dylan se sentiu instigado pela Invasão Britânica e decidiu eletrificar seu repertório, não sem ouvir vaias e ferozes críticas dos fãs mais ortodoxos da música folk, acostumados a arranjos exclusivamente acústicos.

The Byrds - Mr. Tambourine Man

Bob Dylan - Like a rolling stone


Com a adesão de Bob Dylan, o rock ganhou em lirismo e amadurecimento poético. A partir do final de 65, os Beatles ampliaram e complexificaram seu universo temático, ao mesmo tempo que tornavam mais sofisticadas suas melodias, incorporavam instrumentos estranhos ao rock, como a cítara, e elaboravam ousados arranjos orquestrais. O exemplo foi seguido por outros músicos em ambos os lados do Atlântico: nos EUA, as intrincadas construções melódicas e harmonias vocais dos Beach Boys pós-surf music, a negritude vocal da branca Janis Joplin ou o performático carisma de Jim Morrison, líder da banda The Doors; na Inglaterra, o virtuosismo jazz-bluesístico do power trio Cream e os malabarismos instrumentais de Jimi Hendrix, um negro norte-americano acolhido e revelado por Londres, de onde extrapolaria todos os limites da guitarra elétrica até então explorados.

The Beatles - Norwegian wood (This bird has flown)

The Beatles - Eleanor Rigby

The Beach Boys - God only knows

The Jimi Hendrix Experience - Hey Joe

Janis Joplin (with Big Brother & The Holding Co.) - Down on me

The Doors - Break on through


Enfim, se o rock dos anos 50 ajudou a libertar a juventude das prisões do seu corpo, o rock sessentista libertaria as mentes jovens. Mentes libertadas e alteradas de seu estado normal. Em 1964, Bob Dylan apresentou a maconha aos Beatles. No ano seguinte, os outrora inocentes garotos de Liverpool experimentaram ácido lisérgico (LSD), uma poderosa substância alucinógena, cujo uso vinha sendo abertamente apostolado pelo psiquiatra norte-americano Timothy Leary. Ao sexo e ao rock juntavam-se agora as drogas: a trindade satânica estava completa.

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quinta-feira, 11 de junho de 2009

ALGUMA COISA

Pieguice... sentimentalismo burguês... comercialismo... . Pensei em escrever "alguma coisa" sobre o Dia dos Namorados. Desisti. Achei melhor ouvir "Alguma coisa". "Something". Versos como "somewhere in her smile she knows that I don't need no other lover" são mais significativos que quaisquer considerações intelectuais.
Frank Sinatra a considerava a melhor canção de amor dos últimos tempos. Convenhamos: opinião insuspeita e abalizada. Sinatra a gravou maravilhosamente, mas errou o autor. O verdadeiro, L'Angelo Mysterioso, era o quarto - pasmem -, apenas o quarto a atravessar a Rua do Mosteiro.